
Isabel GonçalvesFalar de dinheiro nunca foi simples para mulheres. Não porque a gente não entende, mas porque, por muito tempo, nos ensinaram que dinheiro não era “papo de mulher”. Além disso, crescer sendo mulher no Brasil significa aprender cedo a se preocupar com todo mundo antes de pensar em si. E isso, claro, molda nossa relação com o dinheiro.
Eu escrevo sobre finanças e, mesmo assim, sou perseguida pela ideia de que é um tema “difícil”, “frio” ou “coisa de homem”, o que é estranho já que nem os homens parecem saber exatamente o que estão fazendo. Mas quanto mais eu entendo, mais eu percebo: falar de dinheiro é falar de autonomia, de segurança e, principalmente, de escolha. E isso tem tudo a ver com a gente.
Desde pequenas, muitas de nós aprendemos a economizar não para investir, mas para “não dar trabalho”. E também a ser prudentes, contidas, cuidadosas e quase nunca ousadas. Enquanto homens são estimulados a correr riscos, negociar salários e investir, mulheres são ensinadas a guardar e a pensar no amanhã com medo.
Isso aparece nas escolhas profissionais, nos relacionamentos e, claro, na forma como lidamos com o dinheiro. Quantas mulheres adiam investimentos porque acham que “não sabem o suficiente”? Quantas deixam a vida financeira nas mãos de outra pessoa porque acreditam que isso é mais seguro?
A verdade é que não existe neutralidade nisso. Existe contexto. E ele pesa.
Não é sensação. É dado.
As mulheres ainda são minoria entre os investidores no Brasil, segundo pesquisa da ANBIMA, em parceria com o DataFolha. Mesmo que representem mais da metade da população, nossa presença no mercado financeiro cresce em ritmo mais lento do que poderia. E isso não tem nada a ver com falta de capacidade ou desinteresse.
Tem a ver com acesso, linguagem e incentivo.
Durante muito tempo, o mercado falou difícil de propósito. Usou termos técnicos, exemplos distantes da realidade e uma comunicação que não acolhe quem está começando. Quando a mulher chega, muitas vezes já chega se sentindo atrasada, devendo algo, como se tivesse perdido um trem que nunca foi anunciado pra ela.
E aí vem o mito mais injusto de todos: o de que mulher não gosta de investir. A gente gosta, sim. Só não gosta de ser tratada como exceção, nem de ouvir que “não é pra todo mundo”.
Existe uma conversa sobre finanças que quase nunca entra nos relatórios: a violência patrimonial. Ela acontece quando uma mulher perde o controle sobre o próprio dinheiro ou nunca teve esse controle de verdade. Em muitos casos, isso só fica claro depois de um divórcio. Há histórias de mulheres que passaram anos contribuindo para a casa, abrindo mão da carreira, confiando que o patrimônio era “do casal”… e saíram da relação sem nada.
Nem conta, nem reserva e muito menos, segurança. Construir patrimônio próprio não é egoísmo. É proteção. É entender que amor não substitui autonomia financeira e que independência não é o oposto de parceria.
Dinheiro, nesse contexto, deixa de ser número e passa a ser escudo.
Ser protagonista das próprias finanças não é virar expert em investimentos. É parar de fingir que o dinheiro “se resolve sozinho” e começar a tomar decisões conscientes, mesmo que pequenas.
Antes de investir, você precisa enxergar. Entender quanto ganha, quanto gasta e onde exagera não é sobre culpa, é sobre clareza. Dinheiro que você não acompanha sempre acaba decidindo por você.
Pode ser pouco, mas precisa ser seu. Ter uma reserva ou um valor separado muda tudo: dá segurança, autonomia e liberdade de escolha.
Você não precisa entender tudo agora. Finanças são uma habilidade, não um talento nato. Escolha boas referências, faça perguntas e comece. O erro não é não saber, é achar que esse assunto não é pra você.
A boa notícia é que o cenário está mudando. E está mudando porque mulheres começaram a ocupar esse espaço com a própria voz, falando de dinheiro do jeito que a gente entende.
Hoje, quem quer aprender sobre finanças já não precisa se sentir deslocada. Existem criadoras, projetos e veículos que traduzem investimento para a vida real, sem julgamento e sem pedestal.
Alguns exemplos que mostram como esse movimento é coletivo e potente:
Fala sobre dinheiro a partir da realidade de quem ganha pouco, mostrando que organização financeira não é privilégio, é ferramenta de sobrevivência e ascensão.
Popularizou o tema investimentos no Brasil, usando humor, didatismo e uma linguagem direta, provando que finanças não precisam ser entediantes para serem sérias.
Une moda, comportamento e investimento, quebrando a ideia de que dinheiro precisa ser tratado num ambiente distante da cultura.
Um espaço que conecta dinheiro, identidade, cotidiano e afeto, mostrando que falar de finanças também é falar de vida real.
Essas vozes fazem algo essencial: normalizam a presença feminina no dinheiro. Sem pedir licença.
Pode parecer estranho citar uma personagem fictícia num texto sobre investimentos, mas Becky Bloom — de Os Delírios de Consumo de Becky Bloom — é mais atual e relacionável do que parece.
Ela não é só “descontrolada com compras”. Becky representa uma geração de mulheres que nunca foi ensinada a lidar com dinheiro de forma saudável, até ser colocada num cargo que a força a pesquisar e escrever sobre finanças. Quantas de nós já não passamos por algum choque que nos colocou de frente com o problema?
A diferença é que, hoje, a gente começa a ter outras referências além da Becky. Mulheres que mostram que dá pra gostar de comprar, de moda, de viver e ainda assim investir, planejar e construir patrimônio.
Não é sobre virar outra pessoa. É aprender a jogar o jogo para poder continuar a ser você mesma.
Quando uma mulher investe, ela não está só pensando no futuro financeiro. Ela está reduzindo dependências, ampliando escolhas e mudando estatísticas. Está dizendo, na prática, que dinheiro também é papo de mulher.
Não existe investimento pequeno demais quando ele representa autonomia. Não existe “tarde demais” quando a informação finalmente chega. E não existe empoderamento real sem educação financeira.
Esse movimento não é sobre enriquecer rápido. É sobre poder sair de uma relação ruim, recusar um trabalho injusto ou simplesmente dormir tranquila sabendo que existe um plano.
Falar de dinheiro sendo mulher é revisitar tudo o que nos ensinaram e escolher o que fica. Crescer sendo mulher molda, sim, nossa relação com o dinheiro. Os números confirmam o que a gente sente, a violência patrimonial mostra o risco de não falar sobre isso e as novas vozes femininas provam que existe outro caminho.
Eu escrevo sobre finanças porque acredito que informação muda o destino. Porque nenhuma mulher deveria descobrir tarde demais que poderia ter tido escolha. E porque investir, no fim das contas, é um gesto de cuidado consigo mesma.
Se esse texto serviu para que pelo menos uma mulher abra uma planilha, comece a falar de dinheiro com as amigas, faça uma reserva ou questione quem sempre cuidou do dinheiro por ela, ele já cumpriu seu papel. Dinheiro também é nosso. E a gente não vai devolver esse espaço.